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O Cerradão
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O problema da esquerda é o "todes"

Existe uma palavra que simboliza a crise da esquerda contemporânea: "todes".

Por Naedson

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Ala da Acadêmicos de Niterói "Neoconservadores em conserva"
Duda Monteiro de Barros / VEJA.com

Não porque o uso do gênero neutro seja, por si só, uma ameaça à sociedade. Não é. O problema é o que essa palavra representa politicamente. Enquanto milhões de brasileiros estão preocupados com inflação, violência, desemprego, corrupção e perda de poder de compra, parte da esquerda parece ocupada em discutir temas que fazem sentido para grupos altamente politizados, mas que soam distantes da vida do trabalhador comum.

O sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar um ônibus lotado não está pensando em linguagem neutra. Ele está pensando no preço do arroz, na prestação do carro, no aluguel, no medo de ser assaltado na volta para casa e na dificuldade de sustentar a família. É com essa realidade concreta que a política precisa dialogar.

Durante décadas, a esquerda foi a voz dos trabalhadores. Falava de salário, jornada de trabalho, moradia e dignidade material. Hoje, muitas vezes parece mais preocupada em corrigir vocabulários do que em compreender angústias populares. Não por acaso, cresce a sensação de que existe uma distância entre os setores progressistas e aqueles que deveriam ser sua principal base social.

Essa desconexão aparece também na forma como certas manifestações culturais tratam instituições que continuam sendo fundamentais para a população. A família, por exemplo, não é apenas um símbolo conservador. Para milhões de brasileiros pobres, ela é uma instituição de sobrevivência.

É a família que empresta dinheiro quando o banco nega crédito. É a família que faz vaquinha para pagar uma cirurgia. É a mãe que cuida dos netos para que a filha possa trabalhar. É o irmão que empresta o nome para financiar uma moto. É o tio que ajuda a pagar a faculdade do sobrinho. Em muitos bairros populares, a família não é uma abstração ideológica; é o principal sistema de proteção social existente.

Por isso, quando setores da esquerda parecem tratar a família tradicional apenas como uma estrutura de opressão, acabam atacando algo que o povo considera um patrimônio afetivo e material. Não enxergam que, onde o Estado falha, muitas vezes é a família que impede a completa desintegração social.

Nelson Rodrigues dizia que os intelectuais brasileiros frequentemente tinham vergonha do povo real. Talvez fosse exagero. Mas existe uma verdade incômoda nessa observação. Há momentos em que parte da esquerda parece mais interessada em educar o povo do que em ouvi-lo. Mais interessada em corrigir costumes do que em compreender necessidades.

Autores conservadores britânicos como Edmund Burke e Roger Scruton compreenderam algo que a política moderna frequentemente esquece: instituições sociais sobrevivem porque desempenham funções concretas. Tradições não existem apenas por inércia; muitas vezes são mecanismos construídos ao longo de gerações para enfrentar problemas reais. Desprezá-las sem entender sua função costuma produzir ressentimento, não progresso.

A questão central talvez não seja a defesa de minorias, mas a forma como essa defesa é conduzida. Mudanças culturais duradouras costumam ocorrer por meio da educação, do convencimento e do diálogo. Quando a política é percebida como imposição moral ou linguística, gera resistência mesmo entre pessoas que poderiam apoiar seus objetivos.

Política é, antes de tudo, identificação. As pessoas precisam sentir que alguém compreende seus problemas. Quando uma mãe vê o preço dos alimentos subir toda semana, ela não quer discutir linguagem neutra, debates acadêmicos sobre gênero ou polêmicas sobre banheiros para pessoas trans. Quando um trabalhador teme a violência no trajeto para casa, ele não está procurando disputas semânticas. Ele quer segurança. Quer estabilidade. Quer perspectivas.

O ponto não é que essas discussões sejam ilegítimas ou que determinados grupos não mereçam respeito e proteção. O problema surge quando elas passam a ocupar mais espaço do que temas que afetam diretamente a vida da maioria da população. O cidadão comum sente a inflação no supermercado, a insegurança nas ruas e a dificuldade de construir uma vida melhor para os filhos. É com essa realidade que a política precisa dialogar.

Por isso, debates como o fim da escala 6x1, ainda que acompanhados de disputas eleitorais e oportunismo político, representam uma tentativa de reconexão da esquerda com suas origens históricas. Trata-se de uma pauta ligada às condições de trabalho, ao tempo livre, à qualidade de vida e à dignidade do trabalhador. É significativo observar que uma das principais vozes associadas a essa discussão é a deputada Erika Hilton. Isso demonstra que o problema não está nas pautas identitárias em si, nem nas pessoas que as defendem. O problema surge quando a política deixa de conectar essas pautas às preocupações materiais e concretas da população.

A crítica, portanto, não é às pautas de gênero, nem aos direitos das minorias. A crítica é à perda da identidade histórica de uma esquerda que nasceu para representar trabalhadores, pobres e setores populares. Quando essa conexão enfraquece, abre-se espaço para que outras lideranças ocupem esse terreno político. É nesse vazio que figuras como Nikolas Ferreira encontram espaço para crescer. Não necessariamente porque apresentem melhores soluções para os problemas do país, mas porque conseguem transmitir a sensação de que estão falando sobre aquilo que preocupa o cidadão comum.

A esquerda não fracassa porque defende minorias. Ela fracassa quando transmite a impressão de que as preocupações da maioria são secundárias. O problema não é lutar por direitos. O problema é transformar símbolos culturais em prioridade enquanto questões materiais perdem espaço.

Se quiser voltar a falar com o povo, a esquerda precisa voltar a falar a linguagem do povo. Precisa discutir salário antes de slogans, inflação antes de palavras de ordem, segurança antes de disputas simbólicas. Precisa compreender que o cidadão comum não vive dentro das redes sociais, das universidades ou dos círculos militantes. Ele vive no mercado, no ônibus, no trabalho e dentro de casa.

Enquanto isso não acontecer, continuará existindo a sensação de que a esquerda fala cada vez mais sobre "todes" e cada vez menos sobre todos.

Dica do dia: antes de colocar a família em uma lata de conserva alegórica, vale lembrar que, para boa parte dos brasileiros, ela ainda é a comunidade que supre as falhas do Estado.

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