As armas e as picanhas de Goiás são rosas
Eleição, moralismo e a hipocrisia que a psicologia moral já explicava

Há um roteiro que se repete em Goiás a cada temporada eleitoral: o coronel que promete ordem, o deputado que promete família, o influenciador que vende churrasco e patriotismo na mesma embalagem. Todos falam a mesma língua, a língua da moral, dos "valores", do combate ao que chamam de "marxismo cultural" e "ideologia de gênero". É um discurso que se apresenta como guardião da tradição, da autoridade, da pureza dos costumes. O problema é que, quando se olha para o que esses mesmos nomes fazem, não o que dizem, mas o que fazem, a fachada moral racha. E racha, com frequência, exatamente no ponto que dizem defender: o respeito às mulheres, a decência no trato público, a integridade da própria "família tradicional" que juram proteger.
Pegue o coronel Edson Raiado, cotado pelo governador Ronaldo Caiado como nome da base para a Assembleia Legislativa. Sua marca é a truculência armada, o homem que "atira sem dó", como ele mesmo gosta de ser retratado. Mas o mesmo coronel que constrói capital político em cima da força bruta foi apontado por um vereador de Goiânia como participante de um vídeo defendendo agressões contra mulheres trans em banheiros públicos. Raiado nega, diz que foi tirado de contexto. Pode ser. Mas o episódio que o expôs não veio de um adversário qualquer: veio da mesma semana em que Leandro Batista Nóbrega, dono do Frigorífico Goiás e criador da "Picanha Bolsonaro", símbolo nacional do churrasco como identidade política de direita, foi acusado por uma mulher trans de calote, ameaças e transfobia, depois de contratá-la para um programa sexual. Nas redes, Leandro faz piada com mulheres trans e ataca parlamentares trans por nome; na vida privada, segundo o boletim de ocorrência, ele as procura.
Não é hipocrisia pontual. É padrão. O deputado estadual Amauri Ribeiro, o "deputado do chapéu", é réu por nove episódios de violência política de gênero contra a colega Bia de Lima — insinuou que ela seria pedófila, disse que uma vereadora merecia "um tiro na cara", admitiu ter agredido a própria filha. O deputado federal Gustavo Gayer foi condenado a indenizar a ex-ministra Gleisi Hoffmann depois de compará-la a uma profissional do sexo "oferecida" pelo presidente da República — o mesmo Gayer que depois se orgulhou publicamente de ter enterrado o projeto de lei que criminaliza a misoginia no Congresso. E o deputado Major Araújo, aliado de ambos, chamou a mesma Bia de Lima de mulher "submissa" com "problema mental", e ameaçou um colega de partido dizendo que ele "amanheceria morto" — para depois pedir autorização formal para andar armado dentro do plenário.
Note o padrão, defesa inflamada da família e dos costumes na tribuna e nas redes; desprezo documentado, judicialmente reconhecido em mais de um caso, pela dignidade das mulheres e das pessoas trans na prática cotidiana do mandato ou da vida pessoal.
O elefante, o cavaleiro e a moral seletiva, É aqui que a obra de Jonathan Haidt, A Mente Moralista, ajuda a entender o mecanismo, não para desculpar, mas para nomear o que está acontecendo. Haidt argumenta que a moralidade humana funciona menos como um tribunal de razão e mais como um elefante guiado por um cavaleiro: as intuições morais decidem primeiro, rápido e emocionalmente, e a razão entra depois, como advogado, para justificar o que o elefante já quis fazer. Ninguém pratica hipocrisia consciente e calculada o tempo todo, muitas vezes a pessoa acredita genuinamente na própria retórica moral, mesmo quando age de forma flagrantemente contrária a ela. O cavaleiro sempre encontra uma explicação: foi "tirado de contexto", foi "cultura de cancelamento", foi "armação da esquerda".
Haidt também descreve seis fundações morais, cuidado, justiça, lealdade, autoridade, santidade e liberdade, e mostra que conservadores tendem a distribuir peso moral entre todas elas, enquanto progressistas concentram-se principalmente em cuidado e justiça. É exatamente esse desequilíbrio que os casos goianos escancaram: o discurso de Gayer, Amauri Ribeiro, Major Araújo, Raiado e Leandro do Frigorífico é quase inteiramente sobre lealdade ao grupo, ao "mito", ao partido, autoridade a ordem, a farda, o comando e santidade a família, os costumes, a pureza contra a "ideologia de gênero". A fundação do cuidado dano concreto a pessoas concretas, mulheres e pessoas trans que eles põem em risco com suas falas e condutas, simplesmente não pesa na balança moral desse grupo. Não porque sejam frios calculadamente; porque, na arquitetura moral que escolheram cultivar, cuidado com o "outro" generificado nunca foi prioridade. A moral que sobra é a da tribo, não a da pessoa.
Isso explica por que a incoerência não os desgasta politicamente na mesma proporção em que desgastaria um adversário: a "mentalidade de colmeia" que Haidt descreve, nossa capacidade de nos fundirmos em grupo e defender o grupo acima da consistência individual, protege a fachada moral, mesmo quando as evidências de dano concreto se acumulam em boletins de ocorrência, ações no TRE e condenações no TJGO.
O rosa como metáfora, não como insulto. O título deste artigo não é chacota fácil sobre orientação ou identidade de ninguém, seria, aliás, o mesmo tipo de violência simbólica que este texto denuncia. É uma provocação sobre a cor que sobra quando se raspa a tinta da masculinidade performática: por trás da arma, do chapéu de vaqueiro e da picanha embalada como patriotismo, o que se revela, caso após caso, é fragilidade, a de homens que constroem identidade pública em cima da negação e do ataque ao "outro" e, na prática, não sustentam nem a própria coerência moral que vendem como produto eleitoral.
Não se trata de exigir perfeição de político nenhum, todos erram, todos têm contradições. Trata-se de notar que, quando a marca política de alguém é precisamente a moral, os costumes e a ordem, o padrão de conduta documentado, e não a retórica de campanha , é o único critério jornalístico e eleitoral que interessa. Em Goiás, nas urnas de 2026, esse padrão já está escrito: em boletins de ocorrência, em decisões judiciais e em vídeos que os próprios protagonistas publicaram. Fazendo crer que as armas e as picanhas de são rosas.


