AUMENTO DO TRANSPORTE E O ENTORNO QUE SÓ EXISTE NA HORA DE VOTAR
Três reajustes em menos de um ano, consórcio no papel há mais de um ano e 380 mil trabalhadores pagando a conta do abandono institucional

Por Naedson Martins | Reportagem especial
Enquanto Brasília opera com tarifa única de R$ 5,50 integrada entre ônibus, metrô e BRT, um trabalhador que sai de Águas Lindas de Goiás paga R$ 11,43 para chegar à capital federal. Quem mora em Luziânia e precisa ir até Taguatinga desembolsa até R$ 12,35. Em Planaltina (GO), a passagem chegou a R$ 11,63. São valores que superam, em alguns casos, o dobro da tarifa cobrada dentro do Distrito Federal, pela metade ou menos da qualidade do serviço.
Esse é o cotidiano de cerca de 380 mil trabalhadores que cruzam diariamente a fronteira invisível entre Goiás e o DF, uma fronteira que, para os governos, só parece existir com nitidez em época de eleição.
O último reajuste nas tarifas do transporte semiurbano interestadual da RIDE-DF entrou em vigor em 22 de fevereiro de 2026, determinado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O aumento foi de 2,546%, elevando o coeficiente tarifário de R$ 0,170241 para R$ 0,174576 por passageiro por quilômetro percorrido.
O dado mais impactante não está nos centavos do percentual: está na sequência. Este havia sido o segundo reajuste em menos de seis meses. O anterior, de 2,9%, entrou em vigor em 23 de setembro de 2025.
A tinta do segundo reajuste ainda não havia secado quando veio o terceiro. A partir da meia-noite de 28 de junho de 2026, a empresa Taguatur, que opera linhas de Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto, Cocalzinho e Novo Gama, reajustou oito linhas, com aumento em seis delas. O processo decorreu da Deliberação nº 40, publicada pela ANTT em fevereiro de 2026, mas que dependia da assinatura de um acordo entre a agência e a permissionária e da formalização de um aditivo contratual, concluídos apenas em 24 de junho.
Confira os novos valores da Taguatur a partir de 28 de junho:
\[Criar arte com valores e colocar neste espaço]
O reajuste do percurso Girassol–Brasília, de R$ 1,20, o maior em valor absoluto nesta rodada, é também um símbolo da lógica perversa que rege o transporte do Entorno: acumula-se a defasagem por anos, o último reajuste da Taguatur havia entrado em vigor em agosto de 2023, e o trabalhador paga o acerto de uma vez, sem negociação, sem aviso, sem contrapartida em qualidade.
Em menos de doze meses, a população do Entorno conviveu com três reajustes consecutivos: setembro de 2025 (2,9%), fevereiro de 2026 (2,546%, demais operadoras) e junho de 2026 (Taguatur). Em um calendário em que os salários não sobem na mesma velocidade, a conta fica sempre com quem não tem para onde recorrer.
O consórcio que virou promessa permanente
A história do Consórcio Interfederativo da Região Metropolitana do Entorno do Distrito Federal (CIRME) é um retrato fiel do que acontece quando o poder público faz do Entorno palco de discursos e não de políticas.
A proposta foi anunciada em fevereiro de 2025. A ideia era integrar a gestão do transporte semiurbano entre DF e Goiás, reduzir custos operacionais e, finalmente, oferecer subsídios tarifários à população, algo parecido com o que já existe na Região Metropolitana de Goiânia, onde há cofinanciamento público do transporte. Mais de um ano depois, o consórcio não saiu do papel.
O enredo do fracasso passa por três atores institucionais que, cada um à sua maneira, contribuíram para o impasse. A ANTT, responsável pela regulação do transporte interestadual, disse que não poderia participar do consórcio. Quando DF e Goiás construíram o protocolo de intenções e o enviaram para avaliação, em fevereiro de 2025, a resposta formal da agência só chegou em agosto, sete meses depois. Na mesma ocasião, o Ministério dos Transportes vetou a participação e o financiamento da União no arranjo.
O Governo de Goiás, que se declara contrário ao reajuste e pede adiamento a cada novo aumento, não conseguiu, ou não quis, agilizar a assinatura do protocolo de intenções nem mesmo quando havia prazo. Em setembro de 2025, a minuta estava praticamente pronta, mas não foi possível conciliar as agendas dos governadores Ibaneis Rocha e Ronaldo Caiado para assinar o documento.
O GDF, que aprovou o protocolo internamente e aponta para Goiás como o elo faltante, afirma esperar manifestação da ANTT enquanto os reajustes se sucedem sem que qualquer proteção tarifária seja entregue à população.
O subsecretário de Políticas para Cidades e Transporte de Goiás chegou a revelar que a ANTT sequer fornece memória de cálculo dos reajustes aos estados. "Ela não nos passa nenhuma memória de cálculo, então nós não sabemos qual será essa porcentagem", declarou. É a opacidade regulatória servindo de manto para uma política que garante o equilíbrio das empresas de transporte enquanto desequilibra o orçamento de quem depende do ônibus para trabalhar.
O Entorno é a metáfora do abandono
Há algo de perverso na arquitetura institucional que governa o Entorno. A região abriga mais de 1,5 milhão de pessoas que compõem boa parte da força de trabalho da capital federal, faxineiras, auxiliares de enfermagem, operários da construção civil, servidores terceirizados, diaristas. Trabalhadores que saem de madrugada, enfrentam ônibus lotados e sucateados, e chegam ao fim do mês com uma parcela desproporcional do salário destinada apenas ao deslocamento.
Uma senhora moradora de Formosa relatou que já retira quase R$ 600 por mês apenas com transporte e, muitas vezes, precisa pedir dinheiro emprestado a vizinhos para completar o custeio do deslocamento. Maria Aparecida, 50 anos, de Águas Lindas, resumiu o sentimento coletivo com precisão: "Eles sempre aumentam a passagem, mas só mandam sucata para nos carregar."
Esse abandono tem endereço e tem nome. Não é ausência do Estado, é presença seletiva. O Estado aparece para cobrar, para regulamentar o aumento, para garantir o equilíbrio econômico-financeiro das concessionárias. Desaparece quando se trata de subsidiar, fiscalizar a qualidade, integrar o planejamento ou reduzir as tarifas.
E o espaço deixado por esse abandono tem sido preenchido pelo transporte clandestino. Em 2025, o Detran-DF registrou 802 autuações de transporte irregular. O número não é apenas um dado policial, é um termômetro social. Quando a passagem oficial se torna inacessível, o trabalhador busca alternativa onde encontra, mesmo que arriscando a própria segurança.
As eleições, a única estação em que o Entorno existe
É um fenômeno que se repete com regularidade quase cíclica. A cada quatro anos, as cidades do Entorno tornam-se subitamente visíveis. Candidatos cruzam a BR-020, a BR-040, a BR-060 e a BR-070 prometendo metrô, prometendo consórcio, prometendo tarifa subsidiada, prometendo dignidade no deslocamento. O governador Ibaneis Rocha prometeu, no início do mandato, que em seis meses o transporte do Entorno estaria resolvido. O governador Ronaldo Caiado declara ser contra o reajuste a cada novo aumento. E o resultado concreto, após anos de promessas dos dois lados, é: três reajustes em menos de doze meses, consórcio sem previsão de conclusão, ônibus velhos e sem fiscalização, e 380 mil trabalhadores pagando o preço do desentendimento institucional.
Há uma proposta apresentada em 2025 na Câmara dos Deputados, em parceria com a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), para implantar, em apenas seis meses, a ligação ferroviária Brasília–Valparaíso–Cidade Ocidental–Jardim Ingá–Luziânia. A estimativa é de que, em um ano de operação, 60 mil passageiros por dia deixassem de depender dos caros ônibus semiurbanos. A proposta não exigiria consórcio interestadual nem desapropriação de terrenos. Existe no papel, como o CIRME. E como o CIRME, não saiu do papel.
O Entorno vive uma condição paradoxal que este jornal tem chamado de "Paradoxo do Entorno": as cidades da RIDE-DF concentram população, concentram trabalhadores, concentram demanda por serviços públicos, mas concentram pouco PIB, pouco investimento e muito abandono.
No transporte, esse paradoxo se expressa com clareza. A população que mais depende do coletivo, por não ter carro, por não ter renda para bancar planos alternativos, é exatamente a que paga as tarifas mais altas, usa os ônibus de pior qualidade e tem menos poder de pressão institucional sobre governos que, tecnicamente, dizem não ser responsáveis por ela.
A ANTT diz que o transporte é sua competência. O Governo de Goiás diz que é contrário ao aumento, mas não assina os protocolos a tempo. O GDF diz que aguarda a ANTT. A União veta a participação no consórcio. E enquanto os governos jogam a batata quente uns para os outros, o trabalhador de Águas Lindas coloca a mão no bolso, conta o troco e entra no ônibus.
Essa é a realidade que as eleições encobrem e o cotidiano revela.


